Confissões do Crematório, de Caitlin Doughty

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Confissões do Crematório

Ficha técnica do livro Confissões do Crematório

Título: Confissões do Crematório: lições para toda a vida

Autora: Caitlin Doughty

Tradutora: Regiane Winarski

Editora: DarkSide Books

Ano: 2016

Gênero: Biografias e Histórias Reais

Páginas: 256



Resenha do livro Confissões do Crematório


Preciso admitir que, se não fosse o lançamento de Confissões do Crematório, eu jamais teria tido o prazer de conhecer a incrível Caitlin Doughty. Com apenas 32 anos de idade, ela já acumula 7 anos de experiência na indústria funerária norte americana e outros tantos advogando em defesa do que denomina como “boa morte”. Esse currículo pode até causar arrepios à primeira vista, mas a verdade é que a jovem Caitlin tem muito para ensinar a todos nós.

Confissões do Crematório é um livro repleto de referências literárias, científicas e históricas comentando temas relacionados com a indústria funerária dos Estados Unidos, passando pelas leis aplicadas aos cadáveres até a maneira como essa sociedade lida com a morte. Como nesse assunto não ficamos longe dos norte americanos, praticamente tudo que a autora escreveu em Confissões do Crematório pode ser aplicado a nós, brasileiros.

Por mais que a tecnologia possa ter se tornado nossa mestra, precisamos apenas de um cadáver humano para puxar a âncora do barco e nos levar de volta para o conhecimento firme de que somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres.

Caitlin começa contando sobre sua experiência no crematório da funerária Westwind Cremation & Burial, em São Francisco. Ela passou dois anos por lá aprendendo a banhar cadáveres e prepará-los para o velório – o tipo de serviço que fingimos não existir, preferindo acreditar que os mortos simplesmente aparecem maquiados e engomados para suas cerimônias.

Eu admito que boa parte do que me levou a ler Confissões do Crematório foi uma curiosidade mórbida sobre o funcionamento de uma funerária e as bizarrices que acontecem com quem lida diariamente com gente morta. Para a minha surpresa, o livro trouxe questionamentos existenciais que por pouco não me arrancaram lágrimas. Confissões do Crematório tem seu lugar garantido no meu pódio de melhores livros lidos em 2016.

Apesar de ser um livro do selo Darklove, dedicado às publicações menos sanguinolentas da DarkSide Books, Confissões do Crematório não é para corações fracos. Você sabia, por exemplo, que idosos acamados e que não são mudados de posição podem desenvolver um tipo de gangrena, ocasionada pelo peso dos ossos sobre a pele? E que após cremados, os restos mortais dos bebês são tão pequenos que não passam pela máquina de trituração e precisam ser esmagados à mão? Aliás, após a cremação, os restos do corpo humano precisam passar por um processamento para virarem cinzas. Não vamos do fogo ao pó naturalmente. Portanto, prepare-se para ler sobre essas e muitas outras informações nuas e cruas sobre a morte.

Todas as culturas têm valores de morte. […] Essa necessidade de significado é o motivo pelo qual alguns acreditarem em um sistema intrincado de vida após a morte, de outros acreditarem que sacrificar um determinado animal em um determinado dia leva a colheitas saudáveis e a outros acreditarem que o mundo vai acabar quando um navio construído com as unhas não cortadas dos mortos chegar carregando um exército de cadáveres para lutar com os deuses no fim dos dias (a mitologia nórdica sempre vai ser a mais radical, desculpem).

Ao mesmo tempo que fala sobre coisas escatológicas, Caitlin transmite um bom humor que só um ser humano cheio de empatia poderia praticar. Essa foi a sutileza em Confissões do Crematório que derreteu meu coração. A pesquisa aprofundada da autora unida à sua paixão e respeito pela morte torna a leitura deliciosa e engrandecedora da alma – independente da sua crença religiosa.

Como falei no início do texto, a Caitlin hoje dedica sua carreira a advogar pela causa da “boa morte”, que nada mais é do que nos livrarmos da forma higienista com que lidamos com os mortos, compreendendo que olhar e tocar um cadáver sem intervenções químicas pode ser benéfico para lidarmos com a morte e o luto. Entender que a morte faz parte da nossa existência é um gatilho para o nosso amadurecimento como sociedade. A chamada Order of the Good Death conta com a contribuição de profissionais da indústria funerária, acadêmicos, artistas e simpatizantes do mundo todo.

Aceitar a morte não quer dizer que você não vai ficar arrasado quando alguém que você ama morrer. Quer dizer que você vai ser capaz de se concentrar na sua dor, sem o peso de questões existenciais maiores como “Por que as pessoas morrem?” e “Por que isso está acontecendo comigo?”. A morte não está acontecendo com você. Está acontecendo com todo mundo.

A decisão de compartilhar minhas experiências de leitura nasceu, obviamente, da vontade de indicar livros que me marcaram de alguma forma (salvo resenhas negativas, mas estas não deixam de ter sua utilidade). Mas Confissões do Crematório é imperdível. Hoje, se eu tivesse que indicar apenas um livro de todos que resenhei para quem acompanha o Chovendo Livros, esse seria o livro.

Para quem se interessou por Confissões do Crematório, a Caitlin Doughty possui um canal no YouTube chamado Ask A Mortician, onde ela também fala sobre assuntos relacionados à morte e responde perguntas do público, tudo com um clima bem descontraído. Para quem consegue ouvir em inglês, recomendo muitíssimo!

Espero que você tenha ficado curioso para ler Confissões do Crematório, ou se você já é um fã do trabalho da Caitlin. Boas leituras mortais!

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