Melhores trechos – Especial: Toda luz que não podemos ver

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O tema de hoje é relacionado com algo que todo bom leitor adora: selecionar frases marcantes de livros! Toda luz que não podemos ver é um livro memorável em vários sentidos, daqueles que você quer encher de post-it. O que mais me chamou atenção, e até fiz questão de mencionar na resenha, foi a maneira palpável e extremamente gráfica que o autor descrevia certas cenas. Eu chegava a ver um filme rodando na minha cabeça. Para esse post, selecionei apenas três frases, já que não quero estragar a surpresa de ninguém.

Se você chegou até aqui e não está entendendo muita coisa, considere ler a resenha de Toda luz que não podemos ver antes de continuar (você vai adorar, garanto)!

Cada vez que Marie-Laure repete algum boato para o pai, ele diz “Alemanha” com uma entonação de interrogação, como se dissesse isso pela primeira vez. Diz ele que a anexação da Áustria não é motivo para preocupação. Diz que todo mundo se lembra da última guerra, e ninguém é louco o suficiente para passar por aquilo de novo.

Esse trecho me marcou muito, e lembro que comentei sobre ele com várias pessoas. Dizem que o povo que não conhece sua história acaba cometendo os mesmos erros do passado, mas a cada dia, com tanta merda coisa ruim acontecendo no mundo, parece que vivemos num círculo vicioso de desrespeito e conflitos. 

Guerras continuam acontecendo, apesar de alguns de nós sermos sortudos o suficiente para não fazer parte disso diretamente. E, pra variar, a história é sempre contada pelo vencedor, tornando invisível o sofrimento de muita gente.

E enquanto a noite cai, Werner arrasta em silêncio a pequena Jutta, atravessando a região delimitada de Zollverein em direção ao orfanato, duas crianças de cabelos brancos como neve em uma terra de fuligem, carregando seus tesouros miseráveis para o número 3 da Viktoriastrasse, onde Frau Elena está fitando o fogão a carvão, cantando uma música de ninar francesa com uma voz cansada, uma criança puxando as cordas do seu avental enquanto outra grita nos seus braços.

Lembra que eu falei sobre as descrições incríveis do autor, Anthony Doerr? Esse trecho é o exemplo perfeito. Essa cena ficou gravada na minha cabeça de uma maneira como poucas ficaram. Se um dia rolar uma adaptação cinematográfica de Toda luz que não podemos ver, espero que seja algo cru como Perfume – A História de um Assassino.

— Sabe o que acontece, Etienne — diz madame Manec do outro lado da cozinha —, quando você joga uma rã em uma panela de água fervente?
— Você vai nos contar, tenho certeza.
— Ela pula para fora. Mas sabe o que acontece quando você coloca a rã em uma panela de água fria e então lentamente põe a água para ferver? Sabe o que acontece?
Marie-Laurie aguarda. As batatas soltam fumaça.
— A rã cozinha — fala madame Manec.

Esse trecho é verdadeiro em tantos níveis que não sei nem por onde começar. Estamos na França ocupada pelos Alemães durante a Segunda Guerra, vendo tudo pelos olhos do povo francês. Só que a vida dessas pessoas não mudou drasticamente com a chegada do exército nazista. Houveram racionamentos e toques de recolher, mas a sutileza com que esse tipo de regime foi implementado impedia os franceses de revidar. Ao “cozinhar a rã lentamente”, os alemães conseguiram frear a rebeldia do povo francês, afinal de contas, qualquer reação drástica seria exagero, colocando a integridade dessas pessoas e de suas famílias em risco. Mas essa metáfora não funciona somente para a Segunda Guerra. Quantas coisas acabamos sustentando em nossas vidas, apenas por não perceber a gravidade da situação de imediato?

Boas leituras!

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